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Cirurgia Reconstrutiva - Retalho de Padrão Axial

Mariana Bueno Refundini Por Mariana Bueno Refundini em

O retalho de padrão axial difere dos outros retalhos pediculados por causa da irrigação que nutre ele que são uma artéria e uma veia cutânea direta em sua base. Os ramos terminais desses vasos suprem o plexo subdérmico e isso faz com que tenha uma melhor perfusão do que os retalhos pediculados somente com circulação no plexo subdérmico.

Esses retalhos são elevados e transferidos para defeitos cutâneos dentro de seu raio. Geralmente são retangulares ou em formato de L, estes permitem cobrir com mais eficácia grandes áreas de contornos irregulares. Precisa ser planejado com cuidado, deve ser medido e feito um mapeamento da superfície da pele para ter o mínimo de erro.

São utilizados para facilitar o fechamento da ferida após a retirada de um tumor ou trauma. A taxa de sobrevivência desse retalho é duas vezes maior do que retalhos do plexo subdérmico. Pode ocorrer complicações como a drenagem da ferida, deiscência, necrose na porção distal dos retalhos, infecções e formação de seroma.

  • Vantagens: permitem melhor perfusão se forem comparados com os retalhos de plexo subdérmico e podem cobrir defeitos mais extensos em um único procedimento.

  • Desvantagens: requer um planejamento e conhecimento das artérias que serão utilizadas. Precisam de divulsão extensa do leito doador e boas técnicas para fechar.

Mapeamento da irrigação em modelos de retalhos cutâneos em padrão axial em cães

  1. Auricular caudal: se localiza no atlas, atrás da orelha, em direção a escápula.
  2. Omocervical: cranial ao final da escápula, na linha do acrômio, corre em direção ao dorso.
  3. Toracodorsal: está localizada caudal ao acrômio e no final da escápula, no músculo toraco cutâneo, em direção ao dorso.
  4. Epigástrica caudal: emerge da M5 em direção a M3, irriga 3 mamas na maioria dos casos. Epigástrica cranial fica próximo a M1 e M2, perto da porção xifóide.
  5. Genicular: emerge na face ventral do joelho.
  6. Ilíacas circunflexas: emerge da ilíaca profunda que está na pelve do paciente, cranial a asa do íleo. Forma dois ramos, cranial e ventral.
  7. Caudais laterais: são as artérias da cauda. Saem da inserção do músculo elevador da cauda.
  8. Braquiais superficiais: é difícil de se conseguir fazer retalho dessa artéria, é muito curta e com pouca irrigação. Emerge do olécrano, côndilo lateral em direção ao úmero craniolateral.
  9. Temporal superficial

  10. Safeno reversa lateral: sai no sentido da tíbia.

  11. Safeno reversa medial: sai mais cranial, próximo ao joelho e em direção a artéria femoral.
  12. Toracolateral: cria uma linha imaginária do acrômio em direção a inserção da prega axilar, no meio dessa linha, em direção a M2, se encontra a artéria toracolateral.
  13. Perianais: na lateral do ânus emerge uma artéria em direção ao saco escrotal ou vulva, e próximo sai um ramo dessa artéria que vai em direção a região pélvica.

Retalho de Padrão Axial Auricular Caudal

Os ramos da artéria auricular e veia caudal podem ser usados para reconstruir defeitos ipso ou contralateral envolvendo a cabeça e o pescoço. Os ramos estão localizados atrás da orelha em uma depressão palpável entre a asa do atlas e do canal auditivo.
Essa técnica é utilizada para lesões na face, principalmente em orelha, região ventral, dorsal e lateral da cabeça, podendo chegar até a narina. Quando faz excentração na órbita utiliza esse retalho.

É muito utilizado em gatos, mas não tem um bom resultado, funciona melhor em cães, pois nestes a auricular é mais acentuada. Calcula o pivoteamento (medida da base do retalho até o ponto mais distante do defeito que vai ser corrigido), realiza a confecção do retalho elevando ele profundamente, pode girar por cima (entre as orelhas) ou por baixo. Por cima o pivoteamento é por volta de 180º e, quando este ultrapassa 90 a 130º, corre o risco de ter um retorcimento da artéria, prejudicando a fonte sanguínea do retalho, então é mais recomendado rotacionar o retalho abaixo da orelha. Quanto mais acentuado a rotação desse retalho, maior é o comprometimento do fluxo arterial, o que favorece a necrose na ponta do retalho.
Realiza uma incisão, ficando só o pedículo do retalho e o retalho, desloca ele em direção ao defeito e promove as suturas.

Retalho de Padrão Axial da Artéria Temporal Superficial

É feito através de um ramo cutâneo da artéria temporal superficial, que se prolonga na base do arco zigomático. Pode ser utilizado para cobrir defeitos envolvendo a face e a cabeça, especialmente a área maxilofacial, por exemplo, na reconstrução oral após maxilectomia parcial. São utilizadas duas confecções nesse retalho, avanço ou transposição.
É útil por fornecer reposição de pele a partir de direção diferente, evitando assim uma tensão no fechamento.

Retalho de Padrão Axial Omocervical

É usado para defeitos envolvendo a face, cabeça, orelha, ombro, pescoço e axila. Pode ser passado para dentro da boca para a reconstrução de defeitos oronasais ao terceiro pré-molar. Incorporam o ramo cervical superficial da artéria e veia omocervical, podendo ser deslocado cranial ou caudalmente para corrigir perdas cutâneas. Está localizado no pescoço, cranial à escápula, sendo o acrômio o seu principal ponto de referência.
Mede a distância do centro do processo espinhoso até a borda cranial da escápula, esse valor é multiplicado por 3 e assim tem-se a largura do retalho. Para determinar o comprimento, deve calcular o pivoteamento acrescentando de 1 a 3 cm.

Retalho em Padrão Axial Toracodorsal

São mais robustos, usados para cobrir defeitos envolvendo o ombro, membro torácico, cotovelo, axila e tórax. Em gatos esse retalho estende-se até o carpo. Em cães, a cobertura do membro distal depende da conformação corporal e do comprimento do membro.
É feito através de um ramo cutâneo da artéria e veia toracodorsal, localizadas na depressão caudal do ombro. Devido a presença de uma artéria calibrosa associada ao retalho, ele pode ser utilizado para revestir defeitos maiores.

O retalho é criado com uma ampla incisão cutânea em padrão peninsular ou L invertido, também chamado de taco de hóquei, com limites determinados pelas referências anatômicas. Faz um tubo e, por ele ter uma artéria e uma veia já pode implantar. Se fosse padrão subdérmico teria que esperar uns 15 dias. Esse tubo pode ser retirado ou não, pois ele pode enroscar em algum local.

Retalho de Padrão Axial Torácico Lateral

É parecido com o toracodorsal, mas menor, com abordagem menos extensa. É usado para cobrir o cotovelo. Feito a partir da artéria torácica lateral e da veia associada. Ela surge a partir da artéria axilar e ramos cranianos suprem a dobra de pele do cotovelo e irrigam esse retalho de padrão axial.
Utilizado para cobrir defeitos que envolvem membros torácicos, axilas, escápula e tórax.

Retalho de Padrão Axial Braquial Superficial

São utilizados para recobrir defeitos envolvendo o antebraço e cotovelo. Dependem de uma pequena ramificação da artéria braquial, localizado de 1 a 3 cm proximal ao cotovelo.
A base do retalho deve ser centralizada a superfície flexora cranial do cotovelo. O retalho é rotacionado para o interior do defeito.

Este retalho não é muito bom, pois a artéria é muito pouco irrigada.

Retalho de Padrão Axial Epigástrico Superficial Caudal

É um retalho versátil usado para cobrir defeitos envolvendo o abdome caudal, flanco, prepúcio, períneo, coxa e perna. Em gatos esse retalho se estende sobre o metatarso e, em cães com corpos longos e perna curtas, pode se estender para abaixo da articulação tibiotársico. Inclui as duas ou três glândulas mamárias caudais e é suprido pela artéria epigástrica superficial caudal e veia associada, que passam pelo anel inguinal.

É recomendado fazer ovário-histerectomia, pois as mamas permanecem funcionais.

Retalho de Padrão Axial Epigástrico Superficial Cranial

É menor e menos versátil que o caudal, porém, ele é útil para fechar grandes defeitos da pele que recobre o esterno. Esse retalho deve ser mantido pequeno, pois os vasos são curtos e alguns podem necrosar. Pode ser incluído as glândulas mamárias três, quatro e cinco. Nos machos o retalho termina cranial ao prepúcio, para permitir o fechamento do leito doador e minimizar o risco de necrose. A base do retalho está situada na região hipogástrica, quando o vaso epigástrico cranial entra na pele lateral à linha média abdominal, e de alguns centímetros caudal da borda cartilaginosa do tórax ventral. O retalho é baseado na artéria epigástrica superficial cranial.

Retalho em padrão Axial Ilíaco Circunflexo Profundo

A artéria ilíaca circunflexa profunda ramifica-se da artéria aorta abdominal e emerge cranialmente a asa do ílio e o trocânter maior, dividindo-se em dois ramos: dorsal e ventral. Portanto, essa artéria proporciona a confecção de dois retalhos individuais.

  • O ramo dorsal do vaso ilíaco circunflexo profundo é usado em retalhos para cobrir defeitos envolvendo o tórax caudal, parede abdominal lateral, flanco, área lateral lombar, coxa medial ou lateral, trocanter maior e região pélvica.

  • O ramo ventral da artéria ilíaca circunflexa profunda é utilizada em retalhos para cobrir defeitos da parede abdominal lateral e como retalhos em ilha por defeitos pélvicos e sacrais. Utilizado para a região do tronco.

  • O retalho da dobra do flanco é uma variação do retalho de padrão axial circunflexo ilíaca ventral, desenvolvido para transposição para defeitos inguinais e região ventral do abdome.

Retalho do Padrão Axial Genicular

São usados para cobrir defeitos que envolvem a tíbia lateral e medial e, potencialmente, a articulação tibiotársica, mas esta é pouco utilizada pelo alto risco de necrose. Dependem do ramo genicular curto da artéria e da veia safena mediais, que ocorre na face lateral da articulação do joelho, entre a crista da tíbia e a patela, e progride em direção ao trocânter maior do fêmur.

Retalho de Padrão Axial Caudal Lateral

As artérias caudais laterais da cauda podem ser usadas para reconstruir áreas envolvendo defeitos no períneo, na região dorsoventral e caudodorsal do tronco e nos membros pélvicos. A maior fonte de pele vem do terço proximal da cauda.
A pele da cauda pode ser usada como um retalho em tubo para cobrir defeitos nos membros posteriores. Os vasos caudais laterais são bilaterais e estão localizados no tecido subcutâneo da cauda.
O uso deste retalho requer amputação da cauda. Aproximadamente 75% da pele podem ser preservados pela amputação da parte distal da cauda.

Retalho de Conduto Safeno Reverso

São usados para defeitos no tarso e do metatarso. São criados ligando e dividindo a conexão vascular entre a artéria e a veia femorais e a artéria safena e a veia safena medial.
É uma variação do modelo axial, sendo a irrigação assegurada pela artéria e veia safenas, que emitem pequenos ramos cutâneos diretos para a pele acima. Essa variação se deve ao fato das ligações entre a artéria e veia safenas e os vasos que lhe dão origem possuírem fluxo reverso, ou seja, no sentindo inverso ao normal.

Referências Bibliográficas

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