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DISPLASIA COXOFEMORAL

Luciana Moura Campodonio Por Luciana Moura Campodonio em

A displasia coxofemoral é uma doença genética onde ocorre um desenvolvimento anormal da articulação do quadril caracterizado pela subluxação ou luxação completa da cabeça do fêmur. A luxação da articulação coxofemoral é a separação completa entre a cabeça do fêmur e o acetábulo, já a subluxação é a separação parcial ou incompleta entre a cabeça do fêmur e o acetábulo.

A displasia coxofemoral é uma patologia rotineira na clínica médica e cirúrgica de pequenos animais, que acomete cães jovens, adultos e de meia idade, atingindo principalmente os animais de porte médio, porte grande e gigante, sendo raro em animais de pequeno porte e em felinos. Em alguns casos, em filhotes (5-10 meses) pode-se já se ter sinais que o animal será displásico, devido ao estiramento da cápsula articular, onde no exame físico, consegue-se perceber uma subluxação.

Em pacientes displásicos se observa uma frouxidão da articulação e com isso o animal pode luxar ou subluxar essa articulação. Além disso, há um excesso de liquído sinovial inflamatório, o que provoca também uma separação dessa articulação, onde o fêmur se descola do acetábulo e dessa forma, a articulação fica prejudicada podendo até mesmo levar a uma doença articular degenerativa (DAD).

FISIOPATOLOGIA

As causas da displasia coxofemoral são multifatoriais. E as mais importante são:

  • Fatores hereditários (fator primário determinante)
  • Fatores ambientais (ex: piso liso)
  • Crescimento rápido do animal
  • Nutrição (alimentação de baixa qualidade)
  • Obesidade
  • Inflamação sinovial (a sinovite leva ao aumento do volume do fluido articular, que elimina a estabilidade articular)
  • Subluxação (a subluxação distende a cápsula articular fibrosa, causando dor e claudicação)
  • Aumento da cápsula articular

Esses fatores contribuem para o desenvolvimento da lassidão da articulação do quadril e da subsequente subluxação, que são responsáveis pelos sinais clínicos e alterações articulares no animal.

A displasia coxofemoral pode se manifestar em animais que sofreram trauma durante a sua fase de crescimento, onde ainda não houve o fechamento da linha epifisária.

SINAIS CLÍNICOS

Os sinais clínicos dos animais que possuem displasia coxofemoral são:

  • Dificuldade em se levantar após períodos de descanso;
  • Intolerância a exercícios (sinal mais comum);
  • Claudicação intermitente ou contínua (a claudicação pode também aparecer após a realização de exercícios);
  • Atrofia da musculatura pélvica (em estágio mais avançado da doença).

EXAME FÍSICO

Os animais suspeitos para a displasia coxofemoral geralmente são avaliados pela primeira vez quando o mesmo tem de 5 a 10 meses devido o mesmo estar apresentando sinais clínicos, porém o diagnóstico final de displasia coxofemoral é feito em torno do segundo ano de vida do animal, pois antes desse período, não houve o completo fechamento da linha epifisária, não conseguindo dessa forma dar o diagnóstico final. É importante lembrar que um animal com essa patologia deve ser castrado (caráter genético).

No exame físico os animais podem apresentar:

  • dor na extensão,
  • redução da amplitude,
  • atrofia da musculatura (deve ser mensurada com fita métrica ambos os membros posteriores com o animal em estação),
  • crepitação (ocorre na fase crônica da doença),
  • subluxação no exame de ortolani quando o animal está na fase inicial da doença,
  • Exame de ortolani e exame de barden (são exames que auxiliam no diagnóstico de displasia coxofemoral).
    • Para ambos os exames é necessário que o animal esteja sedado.
    • No exame de ortolani, o fêmur deve ser posicionado de forma paralela a mesa de exame. Então, é necessário que o veterinário coloque uma mão sobre a articulação coxofemoral e a outra deve segurar a articulação do joelho pressionando o fêmur contra o seu acetábulo. Quando esta pressão é exercida, a cabeça femoral da articulação displásica subluxa dorso-lateralmente. A pressão exercida sobre a articulação deve ser mantida e deve-se abduzir ao máximo o fêmur. Durante essa manobra, quando o fêmur volta para a cavidade acetabular, é emitido um som audível.
    • No exame de barden, o veterinário deve segurar o fêmur com uma das mãos e o polegar da outra mão deve ser posicionado na tuberosidade isquiática e o indicador no trocânter maior. Com isso deve-se abduzir o fêmur de forma paralela a mesa de exame.

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DIAGNÓSTICO

O diagnóstico para displasia coxofemoral é radiográfico e para realização do exame o animal deve estar sedado. Deve-se fazer a projeção ventro-dorsal (VD) da pelve com os membros traseiros estendidos simetricamente e rotacionados medialmente para que as patelas fiquem sobre os sulcos trocleares.

  • É importante observar e lembrar que os sinais clínicos nem sempre estão correlacionados aos achados radiográficos.

TRATAMENTO

O objetivo do tratamento é aliviar a dor, reduzir as alterações degenerativas secundárias e melhorar ao extremo a função articular.

O paciente com displasia coxofemoral deve ser tratado quando apresenta os sintomas da doença, se for um achado radiográfico o tratamento não deve ser feito. O tratamento é feito através de:

MEDICAMENTOS:

  • AINES: Carprofan, 4,4 mg/kg SID, após 4 a 5 dias deve-se mudar a dose para 2,2 mg/kg BID (pode ser usado por um longo período)
  • Diacereína: possui ação anti-inflamatóra e minimiza a degeneração da cartilagem, deve ser usado 2mg/kg SID ou BID durante 4 meses. Deve-se esperar um tempo e então se o animal voltar a apresentar os sintomas a medicação deve-se ser dada novamente.
  • Condroprotetores (UC-II, Condroitina, Glicosamina): deve ser dado a dose máxima BID, durante 1 mês. Após SID por mais um mês e no próximo mês a cada 48 hrs e no mês seguinte a cada 72 hrs (é feito dessa forma para evitar problemas gástricos).

FISIOTERAPIA

  • Exercícios de baixo impacto: hidroterapia

TRATAMENTO CIRÚRGICO:

  • Prótese de quadril: após a colocação da prótese é de extrema importância que o animal faça fisioterapia.

  • Ressecção da cabeça e colo femoral ou ostectomia da cabeça e do colo femoral: é a técnica mais comum usada para a displasia coxofemoral. A ressecção da cabeça e colo femoral promove uma limitação do contato ósseo entre a cabeça do fêmur e o acetábulo, eliminando os pontos de contato dolorosos, e permitindo a formação de uma articulação de tecido fibroso. É importante que esse procedimento seja realizado com cuidado para que o fêmur não seja fraturado durante o procedimento, e evitar ao máximo a ocorrência de possíveis traumas na musculatura.

    • Técnica: Deve-se elevar o glúteo e o músculo vasto. Em seguida, a cápsula articular deve ser seccionada. O ligamento redondo também deve ser seccionado. Então, a ressecção deve ser feita rotacionando o membro externamente, expondo a cabeça do fêmur. O osteótomo deve ser posicionado na linha da junção do colo com a metáfise do fêmur e com uma a duas marteladas a ressecção da cabeça e do colo femoral deve ser realizada. Após, é necessário que o membro seja posicionado e feito uma sutura de tensão (sultan) na musculatura, redução de espaço morto e dermorrafia.
  • Denervação: é o melhor tratamento e o procedimento é mais simples, promovendo uma qualidade de vida melhor para o animal. Porém o problema da denervação, é que pode ocorrer de não se ter nenhum resultado ou ter um resultado muito bom por um curto período (até um ano mais ou menos) e dessa forma muitas vezes é necessário operar novamente o paciente, mas mesmo com isso na maioria das vezes há melhora clínica do animal.

    • Técnica: Deve-se fazer uma incisão na interfase do músculo glúteo, vasto e bísceps. Com o auxílio do afastador o glúteo e vasto devem ser elevados. Um dedo deve ser posicionado acima do acetábulo do corpo ilíaco para proteger o nervo ciático. Então o elevador de periósteo deve ser forçado contra o osso promovendo um desgaste do periósteo até que cranial e acima do acetábulo fique bem áspero. Com isso feito, a musculatura deve ser suturada, deve-se fazer a redução de espaço morto e dermorrafia.

Se o animal não estiver apresentando a clínica deve ser dado ao animal uma alimentação de boa qualidade, ser feito exercícios de baixo impacto (fisioterapia, hidroterapia, laser, eletroestimulação) para fortalecer a musculatura e ajudar a estabilizar a articulação.

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