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EXAME NEUROLÓGICO EM PEQUENOS ANIMAIS

Por Giuliane Milani Pessanha de Paula Soares em

O sistema nervoso é composto por neurônios, responsáveis por fazer as sinapses e as células da glia, responsáveis por revestir, sustentar e proteger os neurônios isolando os impulsos nervosos (astrócitos, oligodendrócitos, micróglia e schwann).
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O sistema nervoso pode ser dividido em SNC (encéfalo, medula espinhal, meninges e fluido cerebroespinhal) e em SNP (nervos cranianos e espinhais, gânglios e terminações nervosas). O encéfalo inclui o cérebro, tronco cerebral e cerebelo. O tronco cerebral inclui o mesencéfalo, ponte e o bulbo/medula oblonga (alguns autores incluem o diencéfalo), e sua função é a mais importante do encéfalo, onde está presente o sistema SRA, centro respiratório, o centro do vômito e onde está presente a maior parte dos nervos cranianos (somente o oftálmico e o olfatório não estão presentes). Diencéfalo inclui o tálamo e hipotálamo.

alt alt Os cães apresentam 7 vértebras cervicais, 13 torácicas, 7 lombares, 3 sacrais e as coccígenas. A medula vertebral não acompanha toda a coluna, por exemplo, em cães ela termina em L5-L6, após essa localização é denominado cauda equina. Os segmentos da medula são divididos em: C1-C5, C6-T2, T3-L3 e L4-S3.

O termo neurônio motor superior (NMS) refere-se aos neurônios do cérebro que controlam a atividade motora do corpo, eles exercem seus efeitos estimulando ou inibindo os neurônios que inervam diretamente os músculos. O corpo do NMS encontra-se no córtex ou no encéfalo, e o seu axônio progride até a medula onde faz conexão com o NMI. Os verdadeiros neurônios que inervam os músculos são os neurônios motores inferiores (NMI), eles são responsáveis então de realizar a ação que o NMS estimulou.

A predominância dos neurônios motores são:

  • NMS: C1-C5
  • NMI: C6-T2 – lembrando que há o plexo braquial nessa região
  • NMS: T3-L3
  • NMI: L4-S3- lembrando que há o plexo lombossacro nessa região.

Quando há uma lesão em NMS responsável pela modulação, o animal apresenta o tônus muscular normal a aumentado e o reflexo normal a aumentado. Quando há uma lesão em NMI o animal apresenta o tônus muscular diminuído à ausente e os reflexos d>iminuídos a ausentes.

Segmento da lesão / NeurônioSinal clínico
C1 – C5 / NMSEspasticidade em todos os membros
C6 –T2 / NMIMembros torácicos flácidos e membros pélvicos com tônus e reflexo normais à aumentado
T3- L3 / NMSAnterior à lesão normal e posterior à lesão apresenta hipertonia e hiperreflexia
L4- S3 / NMIAnterior à lesão normal e posterior a lesão apresenta hiporreflexia, atonia em membro pélvico.

EXAME NEUROLÓGICO

Estado Mental

  • Normal: alerta, respondendo aos estímulos;
  • Estupor: estado de dormência, reagindo apenas a estímulos dolorosos;
  • Prostrado: sonolento ou pouco reativo;
  • Delirante: responde de forma exacerbada aos estímulos;
  • Coma: inconsciente, não reage a nenhum tipo de estímulo;

Indicam possíveis alterações em cérebro e tronco encefálico.

Comportamento

  • Irritabilidade, agressividade, demência ou ansiedade

Indicam possíveis alterações em córtex frontal, cérebro e tronco encefálico.

Postura

Da cabeça em relação ao corpo:

  • Head tilt: animal apresenta a cabeça mais rotacionada para um lado, um olho mais elevado que o outro; alteração vestibular.
  • Head turn: animal apresenta a cabeça lateralizada para um dos lados, focinho fica próximo ao tórax. Se associado a andar em círculos, provavelmente alteração em córtex.

Do corpo em relação à gravidade:

  • Descerebração rígida: deve-se a lesão no córtex, caracterizado por extensão de todos os membros, redução no nível de consciência (estupor ou coma) e pode apresentar opistótono.
  • Descerebelação rígida: deve-se a lesão cerebelar, caracterizada por extensão dos membros torácicos, flexão dos membros pélvicos, nível de consciência não é alterado e pode apresentar opistótono.
  • Schiff- Sherrington: é um fenômeno anatômico caracterizado pela extensão dos membros torácicos e paralisia dos membros pélvicos, indicativo de lesão em medula espinhal torácica ou lombar. Ele ocorre quando tem lesão em bordas da medula, devido a um trato denominado trato próprio da medula. Essa posição só pode ser vista quando o animal está em decúbito lateral, porque em estação ou andando não se observa nenhum sinal em membros torácicos.
  • Cifose: convexidade dorsal
  • Lordose: Convexidade ventral
  • Escoliose: curvatura lateral da coluna

Do membro em relação ao corpo:

  • Plantígrado (de membro pélvico) e Palmígrado (de membro torácico).

Marcha

Ataxia é a incapacidade para executar atividade motora normal e coordenada. Pode ser de 3 formas:

  • Proprioceptiva, é a perda da percepção da posição de membros e do corpo. Animal apresenta incoordenação dos membros, base larga e arrastar dos dedos. Normalmente acompanhada de paresia e é uma propriocepção consciente. As causas são lesões que acometem vias proprioceptivas gerais de nervos periféricos, raiz dorsal, medula espinhal e tronco encefálico.
  • Cerebelar, é a incapacidade de controlar a quantidade e a variação dos movimentos, é uma propriocepção inconsciente. Animal apresenta incapacidade de regular a marcha, hipermetria e tremor de intenção.
  • Vestibular: Uni – Inclinação, quedas, head tilt e nistagmo / Bi – Posição de agachamento, reluta andar, movimentos laterais da cabeça.
  • Paresia: perda parcial dos movimentos voluntários, com manifestação de fraqueza e diminuição do tônus. Podendo ocorrer paraparesia, tretaparesia, hemiparesia e monoparesia.
  • Plegia: perda completa dos movimentos voluntários. Podendo ocorrer paraplegia, tetraplegia, hemiplegia e monoplegia.

Reações posturais

  • Posicionamentos proprioceptivos: consiste em virar a pata do animal, de modo que sua superfície dorsal fique em contato com uma superfície. O paciente deve imediatamente retornar a pata para a posição normal.
  • Pulo: reação para não cair, tentar apoiar os membros ao contato próximo com a mesa/chão. Segurar e intercalar os membros para verificar o reflexo em todos.
  • Carrinho de mão: devem-se elevar os membros pélvicos do animal, fazendo com que este apenas apoie os membros anteriores no solo. Pacientes normais caminham com movimentos alternados simétricos.
  • Posicionamento tátil: cobrem-se os olhos do animal e move-o em direção à borda de uma mesa. Quando o animal tocar a pata na mesa, este deve imediatamente colocar o membro adiante para descansar a pata na superfície da mesa.

Reflexos espinhais em membro torácico

  • Reflexo de retirada – avalia o segmento C6-T2
  • Reflexo do tríceps – avalia segmento C7-T2 + nervo radial
  • Reflexo do bíceps – avalia segmento C6-C8 + nervo músculocutâneo.

Reflexos espinhais em membro pélvico

  • Reflexo de retirada – avalia o segmento L6- S2
  • Reflexo patelar – avalia segmento L4-L6 + nervo femoral. O teste pode ser falso quando há perda da musculatura local e tem-se aumento do reflexo patelar semelhante à lesão em NMS.
  • Reflexo tibial cranial – avalia o segmento C6-C8 + nervo ciático ramo fibular. Avalia-se este reflexo quando há suspeita de lesão em nervo ciático. A resposta normal é a flexão do tarso. Faz-se percutindo o músculo tibial cranial, imediatamente distal à epífise proximal da tíbia.

Reflexo espinhal perineal

Avalia segmento S1-S3 + nervo pudendo

Reflexo espinhal cutâneo do tronco

Avalia segmento C8-T1 + nervo torácico lateral.

Nervos cranianos

1. Olfatório: sensitivo. Cobrir os olhos do paciente e apresentar alimento, quando não reage é denominado anosmia ou se reage pouco hiposmia.

2. Óptico: sensitivo. Teste de reflexo de ameaça (também avalia o VII, cerebelo e tálamo-córtex contralareal), Acompanhamento visual com algodão, Teste do obstáculo e Reflexo pupilar direto e consensual (também avalia o lll par).

3. Oculomotor: motor. Controlam o movimento dos olhos, movimentar a cabeça do animal e verificar a posição do globo ocular – se há estrabismo, e reflexo pupilar.

4. Troclear: motor. Controlam o movimento dos olhos, movimentar a cabeça e verificar a posição do globo ocular – se o animal não movimentar o globo juntamente com a cabeça ou possuir estrabismo.

5. Trigêmeo (oftálmico, mandibular, maxilar): misto. Para o teste sensorial, testar a sensibilidade facial, corneal, palpebral e na cabeça. E para testar o motor, fornecer comida porque esse par enerva a musculatura responsável pela mastigação.

6. Abducente: motor. Controlam o movimento dos olhos, testar movimentando a cabeça do animal.

7. Facial: misto. Responsável pela movimentação de orelhas, pálpebras e lábios, testar movimentos da pálpebra (testar o reflexo corneal tocando no canto medial do olho), orelhas e lábios, expressão facial e simetria. Todos esses testes avaliam o Nervo VII

8. Vestibulococlear: sensitivo. Responsável pelo equilíbrio e audição. Testar equilíbrio e audição. Alterações podem apresentar head tilt, nistagmo, ataxia e estrabismo.

9. Glossofaríngeo: misto. Responsável pelos movimentos da língua e deglutição. Testar através da oferta de alimentos. Alterações nele podem causam disfagia, regurgitação, mudança na voz e reflexo de engasgo.

10. Vago: misto. Responsável pela deglutição. Testar ofertando comida.

11. Acessório: motor. Inerva a musculatura do pescoço, fazer a inspeção da musculatura e observar se há atrofia.

12. Hipoglosso: motor. Inerva a língua, testar o tônus lingual e oferecer comida.

Tipos de nistagmo:

  • Nistagmo horizontal: comum em lesões vestibulares periféricas.
  • Nistagmo vertical: comum em lesões vestibulares centrais.
  • Nistagmo rotatório: não é específico.

Nocicepção

  • Dor superficial: deve ser avaliada anteriormente a profunda, com o besliscamento da pele com os dedos ou pinça, e se não houver resposta parte para o teste da dor profunda.
  • Dor profunda: utilizando uma pinça, pressiona o dígito. Os tratos espinhais que carreiam a sensação de dor profunda são pequenos, bilaterais, multissinápticos, internos e localizados na substância branca da medula espinhal. Apenas uma lesão bilateral muito grave interrompe estes tratos, tornando a capacidade de sentir a dor profunda um importante indicador do prognóstico destes animais. Importante lembrar que a retirada do membro apenas indica a existência de um arco reflexo intacto e que uma resposta comportamental requer que os tratos sensoriais ascendentes da medula para o cérebro estejam intactos.

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