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Orquiectomia, Criptorquiectomia e Ovariectomia em equinos

Jéssica Cristine Por Jéssica Cristine em

Orquiectomia

É a remoção cirúrgica dos testículos. No potro, os testículos descem para a bolsa escrotal com 310 dias. Quando não há a descida dos testículos para o saco escrotal, o animal é criptorquida. No parênquima dos testículos há as células de Leydig e os túbulos seminíferos, onde estão localizados as células de Sertoli, que são responsáveis pela produção de testosterona e espermatogênese.

Quando a orquiectomia é realizada por leigos e sem higiene e medidas de hemostasia adequadas, pode haver complicações que podem levar o animal a óbito. É imprescindível que o procedimento seja realizados por profissionais especializados, com o uso de técnicas cirúrgicas e anestésicas adequadas para minimizar complicações no pós-operatório.

É indicado castrar o animal entre 12 e 18 meses de idade, para ter o desenvolvimento de características desejáveis. Além disso, acima de 18 meses o cordão espermático é muito espesso, o que dificulta a hemostasia correta.

A castração é indicada em casos de criptorquidia, para evitar proliferação de genes indesejáveis, facilitar o manejo, favorecer convívio em grupo e prevenir neoplasias testiculares.

Considerações pré-cirúrgicas

  • Anamnese: antes da castração deve-se avaliar se o animal está saudável e palpar o escroto para avaliar se o animal não é criptorquida ou se não há hernia escrotal.
  • Exames pré-operatórios: hemograma completo e bioquímico (mensuração de ureia, creatinina, albumina e ALT).
  • Conhecimento da anatomia: o cirurgião deve conhecer a anatomia para realizar o procedimento corretamente.
    • O escroto está entre os membros posteriores, ventral ao abdômen e na porção caudal. Há uma rafe mediana que divide o escroto em direito e esquerdo. O testículo é composto pelas porções caudais do cordão espermático, músculo cremaster e epidídimo. O testículo é recoberto pela túnica albugínea e dividido em pele externa de tecido conjuntivo, túnica dartos, fáscia escrotal e túnica vaginal. https://anatosistemica.files.wordpress.com/2016/04/escroto.jpg?w=456&h=616

Procedimento cirúrgico

1)Diérese
A castração é realizada através de incisões separadas para cada testículo, sendo feita a uma distância de aproximadamente 1 cm da rafe mediana. Para isso deve-se agarrar o testículo entre o polegar e o indicador e fazer a incisão na pele por todo o comprimento do testículo em sentido crânio-caudal. A incisão segue pela túnica dartos e fáscia escrotal, deixando a túnica vaginal intacta. A pressão aplicada com os dedos do cirurgião faz com que o testículo seja exteriorizado. Em seguida é feito a incisão na túnica vaginal e ordenhamento (empurrar) em sentido cranial. O mesórquio (prega da túnica vaginal entre o testículo e o epidídimo) é rompido e é feito a ressecção do tendão do músculo cremaster que se insere na cauda do epidídimo, liberando o testículo.

Após a liberação do testículo, deve-se empurrar a túnica vaginal o mais cranial possível para colocar o lacre no cordão espermático. Em seguida, é feito a secção do cordão espermático 4 cm abaixo do lacre. Por fim, o cirurgião solta o testículo e verifica se não há sangramento, antes de retornar o cordão espermático com o lacre para a cavidade. O mesmo procedimento é feito no testículo contralateral.

Esse lacre ou braçadeira de náilon é de um material resistente e apresenta um sistema de trava eficiente, sendo um bom método de hemostasia. Além disso, apresenta fácil manuseio e esterilização, baixo custo e é bem tolerado no organismo.

2)Síntese
A síntese, ou seja, a sutura da ferida cirúrgica não é realizado para permitir a drenagem e diminuir a formação de edema. Além disso, não fecha a pele para não criar um ambiente de anaerobiose propício para o desenvolvimento de bactérias anaeróbicas como Clostridium.

Pós-operatório

No pós-operatório deve ser administrado:

  • Penicilina 20-40 mil UI/Kg, a cada 48 horas, intramuscular e 4 aplicações.
  • Flunixina Meglumine 1,1 mg/Kg intravenoso, a cada 24 horas durante 4 dias.

Outros cuidados no pós que devem ser tomados são:

  • Ducha forte por 20 minutos nas laterais do acesso cirúrgico para evitar a formação de edema, pois o movimento da água no tecido faz uma massagem e atrai mediadores inflamatórios.
  • Limpeza com água e clorexidine.
  • Curativo com gaze com PVPI sobre a linha de sutura da pele.
  • Se necessário deve passar repelente para evitar moscas e miíase.

Esses outros cuidados devem ser feitos no mínimo 3 vezes ao dia. O animal deve ficar em repouso por no mínimo 10 dias.

Se fizer a técnica cirúrgica e pós-operatório corretamente, o prognóstico é bom. Caso contrário podem surgir complicações como hemorragia, funiculite (inflamação do funículo), hidrocéle(acúmulo de líquido no saco escrotal) e evisceração.

Criptorquiectomia

Monorquidia é a existência de só um testículo no saco escrotal. O animal monorquida pode ter anorquidia, que é a falta congênita de um ou do dois testículos, ou criptorquidismo, que é o testículo presente em outro lugar que não seja o saco escrotal.

A criptorquidia é uma afecção comum em equinos e caracteriza-se pela falha da descida dos testículos da cavidade abdominal para a bolsa escrotal, podendo ser unilateral (mais comum) ou bilateral. Não há prevalência maior de ocorrência entre testículo esquerdo e direito, porém geralmente o testículo esquerdo acometido fica retido na cavidade abdominal e o direito fica na cavidade abdominal e inguinal. A forma mais comum de criptorquidismo é abdominal unilateral esquerda.

Quando é bilateral, o cavalo é infértil e mais nervoso do que os garanhões normais. Isso ocorre pois eles têm a libido aumentada devido a maior produção de testosterona nos testículos retidos. Esses testículos normalmente são menores e menos consistentes que o normal. Quando é unilateral, o animal tem a produção de sêmen, com redução da densidade espermática em alguns casos.

O criptórquico abdominal pode ser completo, ou seja, possui testículo, epidídimo e ducto deferente na cavidade abdominal, ou incompleto, pois possui o testículo na cavidade abdominal e o epidídimo e ducto deferente no canal inguinal. Já o criptórquico inguinal possui o testículo retido no canal inguinal ou no subcutâneo.

As causas prováveis de criptorquidia são canal inguinal subdesenvolvido, falha na regressão do gubernáculo (estrutura que orienta a descida dos testículos), anomalias testiculares patológicas ou de desenvolvimento e hereditária, onde dois ou mais pares de genes recessivos estão envolvidos.

Na vida embrionária, os testículos estão localizados na cavidade abdominal. Na translocação dos testículos o processo vaginal, que é o peritônio mais a fáscia transversa, forma uma evaginação da cavidade abdominal através do canal inguinal e o gubernáculo aumenta de comprimento e diâmetro, dilatando o anel inguinal. Os testículos migram da cavidade abdominal até o canal inguinal devido ao aumento da pressão intracavitária e tração do gubernáculo, que retrocede e acomoda os testículos no processo vaginal. A descida testicular é essencial para a espermatogênese pois os testículos no saco escrotal têm menor temperatura quando comparada com a cavidade do corpo.

As formas de termorregulação dos testículos são:

  • Pelo músculo cremaster, que faz parte do cordão espermático e é comandado por nervos simpáticos lombares. O músculo cremaster responde as alterações de temperatura ambiental controlando a posição dos testículos em relação ao corpo. Sendo assim, quando está frio o músculo cremaster contrai e aproxima os testículos do corpo e quando está calor o músculo relaxa e afasta os testículos do corpo. Esse processo é chamado de reflexo cremastérico.

  • Pelo cordão vascular, composto pelas veias do plexo pampiniforme que circunda a artéria testicular, possibilita a troca de calor através da regulação do fluxo sanguíneo e perda de calor por irradiação.

  • Através da pele escrotal, que é delgada, com pouco tecido adiposo subcutâneo, sem pelos e com sistema linfático e sanguíneo bem desenvolvidos, que levam a perda de calor por evaporação e irradiação.

  • Pela perda de calor por sudorese, pois o escroto possui uma grande quantidade de glândulas sudoríparas.

O diagnóstico de criptorquidismo é feito através do histórico do animal, inspeção visual, palpação externa da região escrotal e inguinal, exame interno por palpação retal, ultrassonografia e dosagem hormonal.

O tratamento consiste na retirada cirúrgica dos dois testículos, pois o criptorquidismo predispõe a neoplasias testiculares, como teratomas, seminomas, tumores de células de Leydig e de Sertoli e carcinomas.

Os acessos cirúrgicos são inguinal, com incisão sobre o anel inguinal, ou para-inguinal, com incisão paralela ao anel inguinal.

Acesso inguinal

Faz-se incisão de 12 a 15 cm sobre o anel inguinal e dissecação digital, separando a fáscia inguinal subcutâneo e expõe o anel inguinal.Deve-se ter cuidado com ramos da veia pudendo que passam nessa região. Continua-se a dissecação pelo anel inguinal até o canal inguinal, localizando o processo vaginal que contém o testículo. Se o animal for criptorquida inguinal, o testículo será localizado nesse momento. Logo, isola-se o testículo e realiza a castração normalmente.

Na criptorquidia abdominal, o testículo não será localizado. Nesse caso, utiliza-se pinças com ganho através do canal inguinal. Posiciona-se a pinça aberta contra o processo vaginal. A pinça agarra o processo vaginal e o gubernáculo do testículo e quando a pinça é recolhida, retira-se o testículo da cavidade abdominal. Para retirar o testículo do abdômen, deve-se empurrar o anel inguinal com os dedos e tracionar as estruturas para permitir a passagem do testículo pelo anel inguinal. Com o testículo exposto, realiza-se a castração normalmente.

Depois de retirar o testículo, deve ser feito sutura em padrão simples contínuo ou interrompido no anel inguinal com fio absorvível ou não nº0, reduzir espaço morto criado pela aponeurose do músculo oblíquo externo do abdômen com sutura em padrão simples contínuo e fio absorvível 1-0, sutura de subcutâneo em padrão Cushing com vicryl 2-0 e sutura de pele em padrão sutan com náilon 2-0.

Acesso parainguinal

Nessa abordagem, a incisão é feita paralelo ao anel inguinal. As vantagens dessa técnica comparado ao acesso inguinal são: incisão na musculatura, evita os vasos pudendos e diminui a formação de espaço morto e edema.

Após a incisão paralelo ao anel inguinal, o procedimento é o mesmo da abordagem inguinal.

No pós-operatório deve ser administrado:

  • Penicilina 20-40 mil UI/Kg, a cada 48 horas, intramuscular e 4 aplicações.
  • Flunixina Meglumine 1,1 mg/Kg intravenoso, a cada 24 horas durante 4 dias.

Outros cuidados no pós que devem ser tomados são:

  • Ducha forte por 20 minutos nas laterais do acesso cirúrgico para evitar a formação de edema, pois o movimento da água no tecido faz uma massagem e atrai mediadores inflamatórios.
  • Limpeza com água e clorexidine.
  • Curativo com gaze com PVPI sobre a linha de sutura da pele.
  • Se necessário deve passar repelente para evitar moscas e miíase.

Esses outros cuidados devem ser feitos no mínimo 3 vezes ao dia. O animal deve ficar em repouso por 10 a 15 dias para retirada dos pontos.

O prognóstico é bom se for realizado a técnica corretamente. As complicações que podem surgir são hemorragia, deiscência da sutura no anel inguinal e evisceração e edema.

Ovariectomia

A ovariectomia pode ser realizada através de acesso pela linha mediana ou pelo flanco. Em ambos os casos, o cirurgião deve conhecer a anatomia para garantir o sucesso do procedimento cirúrgico.

Os ovários das éguas têm formato de feijão, semelhante aos rins dos equinos, medem de 8 a 12 cm e possuem zona parenquimatosa, onde estão localizados os folículos. A borda mesovárica é convexa e é circundada pelo ligamento mesovário, sendo que os vasos e nervos atingem o ovário nessa borda. A extremidade caudal do ovário é arredondada e está ligada ao corno uterino pelo ligamento ovariano.

A ovariectomia é indicada para:

  • Prevenir o estro e prenhez;
  • Tratamento de cistos ovarianos;
  • Favorecer o convívio em grupo;
  • Melhorar o desempenho da égua;
  • Solucionar problemas de neoplasias como tumores das células da granulosa, adenoma cístico ovariano e teratomas ovarianos.

Procedimento cirúrgico com abordagem pela linha média do abdômen

1) Diérese:
Com o animal em decúbito dorsal, faz uma incisão de pele e subcutâneo na linha média do abdômen, iniciando cranial a glândula mamária e estendendo até próximo da cicatriz umbilical. Aprofunda a incisão até a linha alba e peritônio. Localiza e exterioriza o ovário.

Em caso de ovários patológicos, há a presença de líquido, devendo aspirar com agulha para reduzir seu tamanho. Essa aspiração pode ser feita antes da cirurgia, sendo guiado por ultrassom.

Antes de fazer a ligadura do ovário que será retirado, deve injetar 8 ml de lidocaína 2% no pedículo ovariano para haver a maior liberação dos anexos. Isso impede complicações no trans e pós-operatórios e impede acentuada queda de pressão arterial.

2)Ligadura:
Após a localização do ovário e administração da lidocaína no pedículo, deve fazer uma ou duas ligaduras transfixantes com fio sintético absorvível em todos os segmentos do pedículo ovariano. Outra opção é a colocação de lacre no pedículo. Em seguida deve fazer incisão no segmento caudal a ligadura e verifica se não há hemorragia.

Vale ressaltar que em casos de teratoma ovariano, há fibrose no pedículo e fica mais difícil de apertar o nó da ligadura.

3) Síntese:
Por fim, para fechar a cavidade, realiza sutura em peritônio e linha alba em padrão simples continuo realizando parada americana a cada cinco pontos ou sultan com fio nylon 0.60 ou prolene. Em seguida fecha o subcutâneo em padrão simples contínuo ou cushing com vycril 2-0 e faz sutura de pele em padrão colchoeiro horizontal com nylon 0.

Procedimento cirúrgico com abordagem pelo flanco

Nesse caso o animal fica em estação

1)Diérese:
Faz incisão cutânea vertical na fossa paralombar entre a última costela e a tuberosidade coxal, 3 a 5 cm abaixo do processo transverso das vértebras lombares. A insição deve medir de 20 a 25 cm e deve ser feita em um único movimento. Em seguida faz divulsão do tecido subcutâneo e incisão vertical nos músculos oblíquo externo do abdômen e oblíquo interno do abdômen, chegando ao músculo abdominal transverso.

Faz pinçamento do músculo transverso do abdômen com pinça Allis tracionando-o. Em seguida faz um pic com bisturi e estende a incisão com tesoura, tendo acesso a cavidade peritoneal.

Após a abertura da cavidade, localiza-se o ovário e deve fazer uma ou duas ligaduras transfixantes com fio sintético absorvível em todos os segmentos do pedículo ovariano. Outra opção é a colocação de lacre no pedículo. Em seguida deve fazer incisão no segmento caudal a ligadura e verifica se não há hemorragia.

2) Síntese:
Para fechar a cavidade deve fazer sutura em peritônio e músculo abdominal transverso em padrão Reverdin com nylon 0,60 não absorvível, sutura em músculos oblíquo interno e externo do abdômen em padrão Reverdin com nylon 0,60 não absorvível, devendo suturar separadamente cada músculo. Por fim, sutura de pele com nylon 0 não absorvível em padrão sultan.

Pós-operatório

No pós-operatório deve ser administrado:

  • Penicilina 20-40 mil UI/Kg, a cada 48 horas, intramuscular e 4 aplicações.
  • Flunixina Meglumine 1,1 mg/Kg intravenoso, a cada 24 horas durante 4 dias.

Outros cuidados no pós que devem ser tomados são:

  • Ducha forte por 20 minutos nas laterais do acesso cirúrgico para evitar a formação de edema, pois o movimento da água no tecido faz uma massagem e atrai mediadores inflamatórios.
  • Limpeza com água e clorexidine.
  • Curativo com gaze com PVPI sobre a linha de sutura da pele.
  • Se necessário deve passar repelente para evitar moscas e miíase.

Esses outros cuidados devem ser feitos no mínimo 3 vezes ao dia. O animal deve ficar em repouso por 10 a 15 dias para retirada dos pontos.

Complicações

Algumas complicações que podem ocorrer nas ovariectomias em éguas são:

  • Peritonite;
  • Hemorragias;
  • Deiscências de sutura;
  • Eventrações e eviscerações;
  • Drenagem de líquido inflamatório;
  • Edema excessivo;
  • Abscedação e fistulação;
  • Hérnia incisional;
  • Persistência de comportamento estral em diferentes graus de intensidade.

Apesar dessas possíveis complicações, o prognóstico é favorável se realizado o procedimento corretamente. Porém, o prognóstico também depende do grau de comprometimento visceral e tempo de evolução no caso de ovários patológicos.

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