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Tumores Cutâneos

Mariana Bueno Refundini Por Mariana Bueno Refundini em

As neoplasias cutâneas são as neoplasias mais frequentemente encontradas nos animais domésticos, o que se deve ao fato da pele, além de ser o maior e mais exposto de todos os órgãos, ser constituída, juntamente com o tecido subcutâneo, por uma grande variedade de células suscetíveis ao desenvolvimento de neoplasias.

TUMORES MELANOCÍTICOS

Etiologia

As neoplasias de origem melanocítica são formadas a partir de melanoblastos e melanócitos, células capazes de produzir melanina, que está localizada na camada basal e na epiderme e tem a função de proteger contra os raios ultravioleta. No cão, os tumores melanocíticos representam cerca de 4 a 6% de todas as
neoplasias cutâneas. A forma benigna dos tumores melanocíticos é denominada melanocitoma e a maligna de melanoma. Ambas as formas são consideradas frequentes em cães, sendo o melanoma responsável por
aproximadamente 7% das neoplasias malignas. Estes tumores são mais frequentes em cães idosos de pele pigmentada.

MELANOCITOMA

O melanocitoma é uma neoplasia benigna que se origina dos melanócitos da epiderme, derme ou anexos, mas principalmente da bainha externa do folículo piloso.

Incidência

É comum nos cães e raro em gatos. Ocorre em cães de 5 a 11 anos e, em gatos de 4 a 13 anos. Em cães acomete mais as raças Boxer, Pinscher e Cocker e, em gatos, acomete mais os de pelo curto. Possui maior incidência em cães com pele pigmentada e não tem predisposição para o sexo em nenhuma das duas espécies.

Etiologia

  • há correlação entre a exposição a radiação ultravioleta;
  • a predileção por algumas raças sugere que as neoplasias melanocíticas possam ter predisposição genética.
  • foram identificadas alterações na expressão ou função do gene, tais como mutações ou expressões indetectáveis do TP53 e sua respectiva proteína envolvida no controle do ciclo celular e apoptose (morte celular programada), a P53, que pode ser de grande importância no desenvolvimento da neoplasia. Esse gene tem que corrigir um erro genético, quando ele não consegue, ocorre mutação até desenvolver o tumor.
  • lesões e traumas crônicos também predispõe a formação dos tumores.

Comportamento biológico

Se desenvolve em áreas com bastante cobertura pilosa, diferentemente do melanoma. Possui um crescimento bem lento, é pouco infiltrativo e
não invasivo adjacentemente. Geralmente é pedunculado.

  • Nevo melanocítico: é uma lesão benigna que surge como resultado da proliferação de melanócitos, geralmente ocorre em cães que possuem melanina em excesso. São conhecidos como sinais, pintas ou verrugas. Deve-se fazer biópsia nas lesões para verificar se é benigna. Esses nevos podem se transformar em um melanocitoma. A chance disto ocorrer depende de fatores como a quantidade, tamanho do nevo (nevos gigantes presentes desde o nascimento tem um risco muito elevado de transformação) cor da pele.

Sinais Clínicos

  • Localização: determina o comportamento. Se houver uma lesão enegrecida em dígitos é mais provável ser melanoma, pois é um comportamento mais agressivo. Se for observado uma lesão nodular em uma área de cobertura pilosa, deve-se pensar em melanocitoma.

  • Coloração: vai depender da quantidade de melanina, pode ser azulado, preto, marrom, cinza ou vermelho.

  • Características da lesão: são solitárias, em forma de placas, nódulos pediculados, alopécicas e de consistência firme.

Diagnóstico

  • Citologia como complemento de exame.
  • Histopatologia

Tratamento

Para nevos melanocíticos e melanocitoma:

  • Cirurgia: é feita quando há lesões maiores que 2 cm.
  • Criocirurgia: realizada em lesões menores que 2 cm. Faz um congelamento rápido e descongelamento lento. Isso faz com que rompa a membrana celular, gera isquemia e necrose, vem células de defesa (neutrófilos, macrófagos e linfócitos) fazendo com que melhore a imunidade no local, pois os linfócitos matam as células neoplásicas. Descongelando lentamente gera trombo, que normalmente é plaquetário, não passa sangue fazendo com que as células tumorais morram.

MELANOMA

O melanoma é a neoplasia maligna dos melanócitos. Diferente do melanocitoma, ele é extremamente agressivo, principalmente quando ocorre na cabeça, ou seja, intra ocular, intra oral, intra nasal.

Localização

Em cães geralmente ocorre nas regiões de cabeça, membros, principalmente em dígitos, leito ungueal (que é a parte abaixo das unhas), em tronco é menos agressivo e pode ocorrer também no escroto.
Em gatos é comum na íris, pavilhão auricular, pálpebra, dorso e lábios, onde é bem agressivo.

Etiologia

É de origem desconhecida. Em humanos ocorre por causa do sol e, nos cães, traumas crônicos, infecções, exposição a produtos químicos estão associados. Ele tem um crescimento bem rápido e invasivo. Apresenta a manifestação de um nódulo pedunculado, sendo solitário e delimitado, podendo variar a coloração de marrom a preta ou apigmentado, com variação no tamanho de 0,5 a 10 cm de diâmetro mas a maioria tem de 1 a 3 cm.

  • Melanoma Oral: acomete geralmente gengiva, lábios, palato mole e duro. Os animais apresentam mal hálito, babam bastante, a boca pode apresentar sangramentos, edema , mudança de preferência na alimentação (costumam optar por alimentações mais moles), uma notável mudança nos hábitos de mastigação, perda de apetite, tosse crônica, dificuldade para engolir, perda de peso, podem ser observados dentes frouxos também. É um tumor localmente agressivo, irá produzir metástases em 80% dos casos, por via hematógena para os pulmões e linfática para os linfonodos regionais. O prognóstico é pior do que os cutâneos, o tempo médio de sobrevida é de apenas três meses.

  • Melanoma amelanótico: é avermelhado, são observados principalmente na cavidade oral. Ele é parecido com um carcinoma e possui crescimento rápido e invasivo.

Diagnóstico

  • Citologia
  • Histopatologia
  • Imuno-histoquímica é realizado em alguns casos
  • Diagnóstico por imagem

A sobrevida dependerá muito do tamanho do tumor, se acometeu linfonodo e se possui metástase a distância. Em cima disso tem estágios 1,2,3 ou 4. Após isso que dá a sobrevida do paciente.

Tratamento

  • Cirúrgico
  • Quimioterapia
  • Imunoterapia: existe vacina importada, Oncept, mas mão trata metástase, somente o tumor local, então deve ser associada a quimioterapia. O problema é que é difícil de importar.
  • Radioterapia

A eficiência destes tratamentos é muito pequena e o prognóstico é
geralmente desfavorável, com taxas de sobrevivência superior a um ano de apenas 10%. Quando são considerados apenas tumores pequenos, o tempo médio de sobrevida é de 12 meses, sendo a taxa de morte de 54% dois anos após a cirurgia. Quando se têm em conta tumores de maior tamanho, o tempo médio de sobrevida diminui para apenas quatro meses e a taxa de morte aumenta para 100% em dois anos.

  • Cirurgia em melanomas

    • GRAU 1: 17-18 meses de sobrevida
    • GRAU 2: 5-6 meses
    • GRAU 3: 3 meses
    • GRAU 4: em torno de 1 mês de vida
  • Cirúrgico (estadiamento): Melanomas em membros

    • 12 meses: para pacientes sem invasão de linfonodos ou pulmão
    • 11-13% para pacientes com 2 anos de sobrevida, para pacientes sem invasão de linfonodos ou pulmão.
  • Radioterapia: foi realizado um estudo em 18 cães. É uma radioterapia fracionada longa. Mesmo com a radioterapia, a sobrevida não é tão longa.

    • 24 GY divididos em três semanas de 8 GYS em cada aplicação
    • houve 1 morte durante o tratamento
    • 9/18 remissão completa
    • 5/18 remissão parcial
    • 3 sem resposta
    • média de sobrevida 7,9 meses
  • Cirúrgico

    • Ressecção cirúrgica ampla
    • Mandibulectomia
    • Maxilectomia
    • Glossectomia parcial
  • Quimioterapia

Os quimioterápicos utilizados são:

  • Doxorrubicina
  • Carboplatina ou a associação de Carbo e Doxo são mais utilizadas.
  • Cisplatina
  • Dacarbazina

Pode associar a quimioterapia a imunoestimulantes como BCG, vai induzir as células imunitárias que vão atacar o tumor, ou, associa o interferon alfa que estimula a apoptose celular.

  • Imunoterapia

    • BCG: estimula a produção de citocinas inflamatórias (INF-A, INF-T, IL-2), atrai neutrófilos, macrófagos e linfócitos.
    • Interferon alfa: inibição da proliferação celular, indução da apoptose, estímulo dos linfócitos T e efeitos anti-angiogênicos.
  • Vacina anti tumoral (ONCEPT)

    • Promove ativação das tirosinases que são fundamentais na síntese de melanina.
    • Ela estimula a tirosina que é reconhecida pelo sistema imunológico, se impregna nas células tumorais e desenvolve uma resposta humoral e celular contra as células do tumor. Só serve para tratamento local do tumor, não age em metástase.

PLASMOCITOMA

Acomete animais de 9 a 10 anos, raças grandes e não há predileção por sexo. Ocorre raramente em gatos.

Comportamento biológico

É de caráter benigno. Foi realizado um estudo onde foi visto que tem relação com mieloma múltiplo sistêmico, mas em 338 casos de plasmocitoma, somente 4 desenvolveram mieloma múltiplo.

Sinais Clínicos

É um nódulo único, alopécico, sangra muito pois, por ocorrer entre os dígitos, ele entra muito em contato com o solo, então acaba ocorrendo ulceras. Tem tamanho pequeno de mais ou menos 1 a 2 cm. Possui coloração rósea ou vermelha, superfície lisa. Orelhas e dedos são os locais mais afetados, mas em tórax, cabeça, cavidade oral, língua, gengiva e reto já foram relatados, porém ocorre principalmente em dígitos.

Diagnóstico

  • Citologia
  • Histopatologia: a biópsia determina corretamente o diagnóstico, não corre o risco de vir inconclusivo. É feita a biópsia incisional.

Tratamento

  • Excisão cirúrgica: é a modalidade mais eficaz no tratamento desta neoplasia, porém, a criocirurgia é uma técnica muito utilizada nesses casos. É feito um congelamento de área de mais ou menos 1 cm e de profundidade de 0,5 cm. Congela durante 1 minuto dependendo da área.
  • Quimioterapia: pode utilizar prednisona 1 mg/kg/SID ou Alkeran, esta é mais utilizada em casos graves. Seu princípio ativo é o clorambucil. Ela é mais utilizada fora do Brasil.
  • Radioterapia: é indicada em casos inoperáveis.

O prognóstico do plasmocitoma cutâneo é favorável, já que metástases e recidivas são raras.

PAPILOMAS

O papiloma cutâneo é uma neoplasia epitelial benigna que tem origem nos queratinócitos e é induzido, na maioria das vezes, por um papiloma vírus espécie-específico. Nos cães no mínimo quatro síndrome são identificadas clinicamente:

  • Papilose oral: é mais comum. Atinge principalmente animais jovens, sem predileção sexual e é solucionada após alguns meses. Se apresenta na forma de lesões de aspecto verrucoso localizada, ocorre principalmente, na região da boca. A lesão começa como pápulas e placas esbranquiçadas, achatadas, lisas e brilhantes e progride para massas brancas, pedunculares em forma de "couve flor" de até 3 cm de diâmetro.
  • Papilose cutânea: não é tão comum e é mais senil, ocorre em cães mais velhos. As lesões atingem principalmente a cabeça, pálpebras e patas. Elas são únicas à múltiplas, pigmentadas, pedunculadas e geralmente medem menos de 0,5 cm de diâmetro.
  • Papilose de coxim: acomete mais cães jovens e adultos. As lesões são firmes com massas hiperqueratóticas em vários coxins, podendo o animal apresentar claudicação e infecção bacteriana secundária.
  • Papilose cutânea invertida: ocorre bastante em face e coxim.

Etiologia

É pouco frequente em cães e raro em gatos. Representam 12,5% das neoplasias cutâneas em cães. É mais comum em cães idosos e jovens. Nos filhotes é observado mais na boca, onde até 1 ano de idade é mais frequente, mas ocorre normalmente até 2 anos.

  • Raças predispotas: Cocker, Setter irlândes, Beagle.

  • Em cães se reconhece dois tipos:

    • cães jovens geralmente está associado a DNA vírus
    • cães adultos ou idosos pode estar associado a outras doenças imunossupressivas ou debilitantes como cinomose, parvovirose, erliquiose.

Correlação com alterações no DNA podem estar relacionadas a certos tipos de carcinomas de células escamosas, que ocorrem de forma secundária. Esse carcinoma é diferente, pois ele ocorre no corpo inteiro.

Comportamento biológico

São benignos, possuem evolução auto-limitante, ocorrem rapidamente. Geralmente se apresentam com aspecto de verrugas e de consistência dura. A coloração varia da tonalidade branco acinzentada a negra, com superfícies ásperas e friáveis que se destacam facilmente gerando hemorragias. As lesões variam de pequenos nódulos circunscritos, menores que 0,5 cm de diâmetro, até grandes massas desuniformes, popularmente denominadas “couve-flor” ou “verrugas”.
A maioria das infecções regride espontaneamente entre quatro a oito semana pós infecção. Entretanto, ocasionalmente, os papilomas
podem persistir ou recidivar, especialmente em cães imunossuprimidos. A regressão esta diretamente relacionada a imunidade. Geralmente cães que sofreram infecção e regressão total dos papilomas se tornam resistentes a reinfecção. No entanto, podem ocorrer casos de recidiva dos papilomas devido ao não estabelecimento da resposta imune adequada ou por deficiências da imunidade do animal susceptível.

Sinais Clínicos

Halitose, hemorragia, infecções bacterianas secundárias, acompanhada por secreção purulenta na região dos papilomas, são complicações
clínicas observadas na doença em cães.

Diagnóstico

O diagnóstico da papilomatose deve ser baseado na idade e no histórico do animal, no aspecto macroscópico das massas orais, no exame histopatológico dessas nodulações seguido de microscopia eletrônica.

Tratamento

Todas as formas de tratamento visam a estimulação da imunidade.

  • Remoção cirúrgica
  • Criocirurgia: a resposta a ela proporciona a melhora. Pode ser associada a BCG ou Infervac e hemoterapia, que consiste na retirada de sangue venoso do animal acometido por papilomatose e aplicado nele mesmo imediatamente, por via intramuscular, com a finalidade de estimular o sistema imunológico pela ativação do sistema mononuclear fagocitário, o que pode aumentar o número de anticorpos circulantes.
  • Levamizol e Tiabendazol são vermífugos, deve dar a dose máxima, estimulando a imunidade do paciente.
  • BCG: estimula a imunidade

TRICOEPITELIOMA

O tricoepitelioma é uma neoplasia benigna com origem nos queratinócitos que se diferenciam nos segmentos dos folículos piloso.

Incidência e etiologia

Em cães é frequente, já em gatos ocorre raramente. A idade em cães é de 1 a 15 anos e em gatos, 9 anos. Acomete geralmente cadelas das raças Basset, Golden, Poodle e Pastor Alemão.

Comportamento biológico

Possuem crescimento lento, geralmente são recidivantes. Se localizam no dorso, pescoço, tórax e cauda. O tumor é localizado dentro da derme, com extensão no tecido subcutâneo.

Sinais clínicos

Nódulos circunscritos, únicos, delimitados, ulcerados em alguns casos, tamanho de 0,5 a 20 cm. Causa alopecia sobre a massa, edemaciação, pois obstrui um pouco a drenagem linfática.

Diagnóstico

Histopatológico ou citológico. Na maioria das vezes realiza a biópsia excisional, mas em lesões muito grande é importante realizar a biópsia incisional.

Tratamento e Prognóstico

Se remover com margem cirúrgica, aproximadamente 1 cm já é suficiente, já pode proporcionar a cura do animal, pois ele não é metastático.

TRICOEPITELIOMA MALIGNO

Os tumores que se originam no folículo piloso representam 5% das
neoplasias de pele dos cães. O tricoepitelioma maligno é um tumor que
mostra diferenciação tanto na matriz do pelo quanto na bainha da raiz interna do pelo, podendo ocorrer metástase.

Incidência

Ocorre raramente em cães, há pouquíssimos casos relatados. Não se detectou predileção por idade, raça e sexo.

Comportamento biológico

Apresentam recorrência, pode ocorrer metástases para linfonodos e pulmões e possuem crescimento rápido.

Sinais clínicos

É nodular, infiltrativo, invade a derme e subcutâneo, chegando nos vasos linfáticos, obstruindo e causando edema de membro ou regional.

Prognóstico

É bom, se realizar o procedimento cirúrgico precoce. Pode possibilitar a cura mas existe a chance de ocorrer metástase, então os linfonodos devem ser retirados. Só 4% dos casos apresentam invasão dos linfonodos.

TRICOBLASTOMA

É uma neoplasia benigna comum que se origina do epitélio piloso primitivo. Acomete cães e gatos. Comportamento biológico

Possui um crescimento lento, é pouco infiltrativo. Os cães afetados pelo tricoblastoma tem entre 4 e 9 anos e não há predileção sexual. Pode ocorrer na cabeça, pescoço, membro anterior, abdome. Normalmente ocorrem no lábio inferior, formando um nódulo pendulado onde o animal coça e se torna ulcerado.

Sinais clínicos

Geralmente são tumores pequenos, de 0,5 a 2 cm de diâmetro. Ocasionalmente podem chegar a 15 ou 20 cm. São císticos ou sólidos, de coloração azulada ou preto e podem ser ulcerados e pendulares.

Diagnóstico

Biópsia excisional e histopatologia.

Tratamento

Cirurgia em nódulos acima de 2 cm e, menor que 2 cm, faz criocirurgia.

Obs: em casos de neoplasias cutâneas, onde irá realizar a biópsia excisional e não tem o laudo ou diagnóstico prévio, não deve administrar Morfina e Meperidina na MPA, pois estes anestésicos granulam mastocitoma. Se for mastocitoma pode gerar uma degeneração de mastócito gerando histamina, seratonina. O ideal é evitar esses anestésicos.

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