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TUMORES MAMÁRIOS EM CÃES E GATOS

Luciana Moura Campodonio Por Luciana Moura Campodonio em

Os tumores mamários são um dos tipos de tumores mais comuns encontrados na clínica médica de pequenos animais, sendo mais comuns em fêmeas do que em machos e ainda em gatas os tumores mamários representam cerca de um terço de todos os tumores nos felinos. Além disso, esse tipo de tumor tem uma maior ocorrência em animais idosos, pois nessa idade nos animais, ocorre uma queda dos hormônios progesterona e estrogênio, o que está associado à ocorrência de tumores malignos.

Há fatores que podem estimular o aparecimento de tumores mamários nos cães e gatos e eles são:

  • Cistos foliculares
  • Corpo lúteo persistente
  • Pseudogestação
  • Nuliparidade (fêmea que nunca pariu)
  • Obesidade
  • Utilização de progestágenos (vacina anticoncepcional)

A neoplasia mamária é a segunda neoplasia que mais ocorre nos cães, representando cerca de 25 a 42% nas fêmeas e nos machos representa menos de 1% dos casos, porém, nos machos normalmente as neoplasias são malignas e muito agressivas. O tumor de mama geralmente ocorre em animais mais velhos (cães de 6 a 11 anos e gatos de 8 a 14 anos), no entanto, acima dos 6 anos de idade o risco do aparecimento desse tipo de tumor aumenta. Além disso, entorno de 70% das cadelas apresentam tumores em mais de uma glândula mamária.

PREVENÇÃO DO DESENVOLVIMENTO DOS TUMORES MAMÁRIOS

A causa da neoplasia mamária é ainda desconhecida, porém se sabe que muitas neoplasias são hormônio-dependentes, e com isso a maioria dessas neoplasias pode ser evitada através da castração.

Se a castração em cadelas for realizada antes do primeiro cio a chance de desenvolvimento de tumor de mama é de 0,5%, se for feita antes do segundo cio o risco de desenvolvimento de tumor de mama sobe para 8% e sobe 26% se for feita antes do terceiro cio. Porém, se a castração for feita depois do terceiro cio, já não tem influência nenhuma no desenvolvimento de neoplasias mamárias.

Já em gatas se a castração for feita antes dos seis meses a chance de desenvolvimento de neoplasias mamárias é de 9%, já se for castrada antes dos 12 meses a chance sobe para 14% e se forem castradas antes do primeiro ano sobe ainda mais, com chance de 89%. É importante lembrar, que nas gatas os tumores mamários são muito mais agressivos quando comparado aos tumores que ocorrem nas cadelas.

USO DE CONTRACEPTIVO

  • Progestrógenos – hormônio do crescimento que causa o aumento dos lóbulos alveolares e pode causar hiperplasia mioepitelial, podendo formar nódulos benignos em cadelas jovens;

  • Estrógeno – estimula o crescimento ductal das mamas, onde drena o leite;

  • Associação de Progestógenos e estrógeno por longo período – aumentam o risco de desenvolvimento de neoplasias malignas em cadelas e gatas.

CLASSIFICAÇÃO DOS TUMORES MAMÁRIOS

TUMORES MALIGNOS

As características macroscópicas de tumores malignos são:

  • Crescimento rápido;
  • Fixado a pele ou a outros tecidos;
  • Assimétrico;
  • Ulcerados e/ou Inflamados;
  • Animal pode apresentar linfoadenomegalia e dispnéia.

    • Lembrar que sempre deve-se levar em conta as características TNM (tamanho, linfonodo e metástase à distância).*

    • Deve-se lembrar ainda que é de extrema importância sempre mandar todos os tumores retirados para análise citológica e histopatológica para assim saber todas as características do tumor bem como saber se é maligno ou benigno. Os linfonodos axilar e inguinal também devem ser enviados para análise.

Os tumores malignos podem ser Carcinomas não infiltrativos ou Carcinoma completo ou Carcinoma simples, onde ainda ocorre uma subdivisão em cacinomas:

  • Tubolopapilar
    • Micropapilar
  • Sólido
  • Anaplásico

Há tumores que não tem origem de tecido mamário, porém podem se desenvolver na mama como os sarcomas (fibrossarcoma e o osteossarcoma). Os tumores de origem de osteossarcoma são extremamaente agressivos e podem ser esquelético ou extraesqueléticos. Os osteossarcomas extraesqueléticos ocorre devido às células pluripotentes que se transformam em tecido cartilaginoso e tem muita deposição de cálcio, formando assim um fragmento ósseo fora do osso, como por exemplo, no tecido mamário.

Os tumores mamários podem também ter origem epitelial e mesenquimal, como o carcinossarcoma, que é um tumor misto e é muito agressivo também, porém esse tipo de tumor responde bem ao tratamento com carboplatina e a doxorrubicina associada.

As glândulas mamárias mais acometidas por tumores malignos são as inguinais (M4 e M5), pois a irrigação sanguínea dessas glândulas é feita através da Artéria Epigástrica Caudal que é mais calibrosa e por isso chega às mamas mais sangue, proteína, aminoácidos e hormônios.

TUMORES BENIGNOS

Os tumores benignos possuem características macroscópicas como:

  • Tumores pequenos bem circunscritos;
  • Firmes a palpação;
  • Não são aderidos a pele e outros tecidos;
  • Crescimento lento;
  • Dificilmente ulceram e inflamam (porém pode ocorrer de ulcerar e inflamar devido a mastite e a pseudogestação).

Os tumores benignos podem ser:

  • Adenomas – pode ser simples ou complexo ou basaloide;
  • Fibroadenomas – pode ser de alta ou baixa celularidade;
  • Tumor misto benigno – como o papiloma ductal

IMPORTANTE - Para os tumores benignos é necessário só fazer acompanhamento do animal quando se é feita a retirada unilateral da cadeia mamária, porém se for feita a retirada bilateral, ou seja, retirada de todos os tumores e mamas, normalmente já se consegue a cura do animal.

AVALIAÇÃO DO TUMOR

Sempre deve-se avaliar o tumor e para isso é importante fazer as perguntas para auxiliar nessa avaliação:

1. Está aderido a pele ou não? - Para isso é necessário fazer a palpação da mama, onde deve-se puxar a pele. Se quando puxar a pele o tumor vier junto com a pele, significa que está aderido e se não vier significa que não está aderido;

2. Está aderido a musculatura? – Para isso é necessário mover o tumor para frente e trás e para um lado e outro, onde se o tumor não mover significa que está aderido a musculatura;

3. Existe processo inflamatório adjacente? –É necessário avaliar se há edemaciação da pele, aumento de temperatura da pele, pele com coloração avermelhada, presença de pústulas ou escarificação da epiderme secundária a lambedura (pois na maioria das vezes quando o animal lambe significa que está sentindo dor);

4. Quantas mamas estão envolvidas? – Quanto mais mamas estiverem acometidas a tendência do tumor ser mais agressivo é maior, do que quando há só uma glândula mamária acometida;

5. Qual o tamanho do tumor? – Deve-se mensurar o tumor em seu comprimento, largura e espessura, pois se não tiver esses dados, não se consegue fazer o estadiamento clínico.

Além disso, é necessário analisar os linfonodos através da palpação para avaliar se estão reativos.

DIAGNOSTICO DIFERENCIAL DE LESÕES EM MAMA:

  • Mastites
  • Lipomas
  • Mastocitomas
  • Osteossarcoma extraesqueletico
  • Hiperplasia mamária

DRENAGEM LINFÁTICA

A drenagem linfática é a principal via de disseminação metastática, os fatores linfoangiogênicos são liberados pelo tumor e fazem a produção de novos ramos de vasos linfáticos e com isso ocorre uma modificação da drenagem linfática das mamas do animal, podendo até mesmo fazer uma comunicação com a mama contra lateral.

EXAMES PRÉ OPERATÓRIOS

Antes da cirurgia deve-se fazer sempre os exames pré operatórios como:

  • hemograma
  • bioquímico (renal e hepático)
  • Exames de imagem (raio-x e ultrassom)
    • raio-x para avaliar se há metástase pulmonar, sempre tirando três projeções (ventro-dorsal, lateral direita e lateral esquerda)
    • exame ultrasonografico do abdômen.
  • Avaliar se há presença de síndromes paraneoplásicas

Cerca de 25 a 50% dos cães apresentam micro metástases no pulmão, ou seja, metástases pequenas (abaixo de 6mm) que não é possível visualizar no raio-x somente na tomografia contrastada. Um animal que possui metástase pulmonar normalmente apresenta sinais clínicos como edema em membros, tosse e perda de peso.

TÉCNICA CIRÚRGICA

A escolha da técnica cirúrgica para a remoção do tumor e a quantidade de tecido mamário dependem do tamanho do tumor, localização, consistência e estado do paciente. A técnica utilizada pode ser unilateral ou bilateral.

  • Lembrar sempre que deve-se corar pela via intradérmica os linfonodos axilar e inguinal antes da cirurgia. A migração do corante até o linfonodo dura cerca de 30 minutos. Para cães é usado o azul de metileno e para gatas é usado o azul patetente.

Atualmente, antes de fazer a mastectomia propriamente dita, é feita a ligadura da epigástrica caudal e também da cranial, dessa forma impede a disseminação de células neoplásicas via veia e também reduz o sangramento.

Para a mastectomia bilateral a cadela não pode ter um corpo cilíndrico, não pode ter o tórax muito profundo e tem que ter uma pele elástica, pois se não causa muita tensão significativa na linha de sutura. Por isso muitas vezes a mastectomia é feita em duas etapas (retirando as mamas de forma unilateral e depois de mais ou menos um mês é feita a retirada da outra cadeia mamária), pois dessa forma permite a reparação e o relaxamento da pele que foi esticada e também minimiza as dores no pós operatório do animal.

A sutura feita na mastectomia é o walking suture que pode ser simples (subcuticular pegando derme, fáscia, aponeurose e musculatura) ou modificada. Essa sutura é feita para reduzir o espaço morto e tensão da sutura. O fio utilizado sempre deve ser o monofilamentar absorvível.

TRATAMENTO

O tratamento de escolha para os tumores mamários normalmente é cirúrgico. Com a cirurgia há:

  • Cura (dependendo do tipo de tumor que o animal apresenta);
  • Aumenta a qualidade de vida;
  • Tem menor custo;
  • Altera a evolução da doença;
  • Pode ser aplicada em todos os pacientes;
  • Pode ser utilizada como tratamento paliativo;
  • Proporciona prognostico.

    • Porém, deve –se sempre avaliar a característica do tumor, pois o carcinoma inflamatório por exemplo, é um tumor extremamente agressivo, onde não se pode fazer mastectomia pois devido a inflamação adjacente da pele, a cicatrização da pele fica muito difícil de ocorrer.

QUIMIOTERAPIA

A quimioterapia é o tratamento medicamentoso destinado a matar ou retardar o crescimento do câncer. Muitas das drogas utilizadas são derivadas de substâncias naturais, como plantas, ou até mesmo derivadas de bactérias, sendo muitas vezes usadas em animais as mesmas drogas utilizadas em pessoas.

A quimioterapia pós-cirúrgica é de extrema importância dependendo do estadiamento clínico. A quimioterapia paliativa é feita em animais com metástase, onde é feita para dar qualidade de vida ao animal bem como prolongar sua expectativa de vida um pouco mais. Na quimioterapia paliativa geralmente é usada a terapia metronômica (que ajuda a matar as células do endotélio vascular, ou seja, vasos sanguíneos, fazendo assim um controle da doença. Mantêm o paciente mais estável e não causa tanto efeito colateral).

A quimioterapia pode ser usada em pacientes com carcinoma sólido/ anaplásico/micropapilar grau II ou III, ou em pacientes metastáticos através de vários protocolos quimioterápicos (por exemplo Gentamicina associada Carboplatina). A quimioterapia pode ser utilizada em casos de carcinomas inflamatórios também (onde o protocolo utilizado pode ser o Paclitaxel ou o Docitaxel associado ao Piroxican). Em animais cardiopatas com apresentação de sinal clínico da doença cardíaca o quimioterápico Doxirrubicina não pode ser utilizado.

  • IMPORTANTE: É de extrema importância que antes de se fazer a quimioterapia seja feito um check-up geral no animal. Além disso, durante todo o tratamento de quimioterapia deve-se sempre monitorar fígado e rim do paciente. O animal com câncer normalmente precisa de um alimento diferenciado, pois precisa ter uma alimentação com mais proteína e menos carboidrato.

Como em humanos, a quimioterapia em animais causa efeitos colaterais como:

  • alopecia (queda de pelo), onde o animal pode ficar sem pelo somente na cabeça ou seu pelo no corpo todo pode ficar com falhas ou até mesmo há animais que perdem o pelo do corpo todo.
  • Imunossupressão,
  • Cistite hemorrágica asséptica,
  • Vômito,
  • Diarréia,
  • Hiporexia (fica seletivo para se alimentar)
  • Anorexia, sendo que algumas vezes dependendo do protocolo utilizado o animal tem uma anorexia bem forte, e por isso pode ser necessário fazer alimentação parenteral no animal.

    • Além disso, alguns protolocos podem causar em cães a cardiomiopatia dilatada e em gatos pode causar nefropatia.

Para a quimioterapia no pós operatório deve ser avaliado:

  • Tamanho do tumor
  • Invasão de linfonodos
  • Invasão de vasos linfáticos
  • Invasão de vasos sanguíneos
  • Avaliar o exame histopatológico
  • Presença de mestastase
  • Estadiamento do tumor

    Deve-se fazer o estadiamento do tumor através do sistema T N M, ou seja, avaliar tamanho, invasão ou não de linfonodos e se há ou não presença de metástase à distância. E então com isso consegue se classificar o tumor em grau I , II, II, IV.

  • Grau I – não há invasão de linfonodos e nem metástase à distância
  • Grau II – tumor acima de 3cm , não há metástase em linfonodos e pulmão
  • Grau III – há invasão de linfonodos, mas não há metástase à distância
  • Grau IV– não tem invasão de linfonodos, mas há metástase à distância
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